Notícias

FESTA DE MOMO

Escolas de samba se preparam para o Carnaval sem saber se ocorrerá

domingo, 28/06/2020, 14:25 - Atualizado em 28/06/2020, 14:25 - Autor: FOLHAPRESS


Um dos maiores espetáculos da Terra, o carnaval brasileiro está na iminência de não ocorrer em razão da pandemia
Um dos maiores espetáculos da Terra, o carnaval brasileiro está na iminência de não ocorrer em razão da pandemia | EBC

"Tá proibido o Carnaval / Nesse país tropical", dizem os versos da canção "Proibido Carnaval", de Daniela Mercury e Caetano Veloso.

Lançada em 2020, ela faz referências às acusações de censura feitas ao governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido); tem ritmo dançante e celebra a diversidade cultural brasileira. O que era metáfora e provocação virou um risco real para a maior festa popular do Brasil em 2021.

Com a pandemia do novo coronavírus, o Carnaval do próximo ano passou a ser uma incerteza. Enquanto isso, carnavalescos trabalham ainda sonhando com os desfiles. No entanto, governantes já admitem um ano sem a festa.

"Nada está decidido, mas acho pouco provável não só Carnaval mas Réveillon ou qualquer outra festa de aglomeração no Brasil e no mundo", afirmou Rui Costa (PT), governador da Bahia, que recebia milhares de turistas.

"O trabalho do carnavalesco começa cedo. A pandemia fez a gente ter mais tempo para ler, pesquisar e adiantar o máximo de trabalho, o que por um lado é bom", diz André Machado, 45, carnavalesco da Colorado do Brás, escola paulistana do grupo especial. "Mas estou criando e desenvolvendo tudo com muita incerteza, e isso acaba me deixando um pouco desanimado", afirma.

Após realizar uma série de pesquisas, Machado está fazendo desenhos e maquetes para o tema da escola, que homenageará a escritora Carolina Maria de Jesus. "Essa maquete é para trazer uma noção daquilo que seria uma favela [no Brasil] na década de 1960, para entendermos melhor [essa parte do tema]", explica.

O músico Darlan Alves, 47, faz parte de um grupo compositor de sambas-enredos de escolas paulistanas e afirma que o processo criativo das obras musicais tem enfrentado uma série de dificuldades durante a quarentena.

Anualmente, as escolas realizam concursos internos para definir seus respectivos enredos. Mas desta vez, tudo está acontecendo pela internet. Nada de churrascos, cervejas ou pizzas, como é tradição.

"Antes, podíamos reunir dez pessoas numa sala de estúdio para gravar um coral, mas não podemos mais fazer isso", diz Alves. "Agora, todas as pessoas precisam estar em salas separadas, e o número reduziu muito. Está bem difícil."

O músico está compondo sambas-enredos para apresentar às escolas Mancha Verde, Águia de Ouro e Império da Casa Verde. Ele afirma que todos os sambistas sabem da gravidade do momento e, por isso, têm consciência da possibilidade de o Carnaval ser adiado ou cancelado em 2021.

"Quantas pessoas vivem profissionalmente em função do Carnaval? É isso que me deixa preocupado. O Carnaval não é apenas uma folia, é a maior manifestação cultural do Brasil", diz Jorge Freitas, presidente da Mancha Verde.

O presidente da Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo, Sidnei Carrioulo, afirmou à reportagem que não existe decisão oficial sobre o assunto, que, segundo ele, será analisado sem pressa.

"Temos conversado pouco com os órgãos públicos porque acho besteira abrir negociações agora. Seria uma coisa meio antipática de se fazer no momento", diz Carrioulo.

"Eu diria que agosto é o 'mês do prazo' para sabermos se vai ou não ter Carnaval. Mas primeiramente, precisamos nos preocupar com a nossa saúde", afirma ele.

A Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro não quis comentar e afirmou, por sua assessoria de imprensa, estar preocupada somente com o bem-estar de todas as pessoas.

Como maneira de combater a propagação da Covid-19, escolas de samba têm organizado ações sociais em periferias brasileiras. Itens como máscaras, álcool em gel, cestas básicas e fraldas são recolhidos para serem entregues nessas regiões.

"Estamos trabalhando muito para fazer doações e sempre seguimos todas as recomendações da Organização Mundial da Saúde", diz Angelina Basílio, presidente da Rosas de Ouro, de São Paulo.

Para ela, o Carnaval de 2021 irá acontecer, mas de uma maneira completamente nova, ainda desconhecida.

Já Elias Riche, presidente da Mangueira, acredita que as chances de a festa acontecer no próximo ano são muito baixas. A escola tem feito doações para moradores da sua comunidade, na região central do Rio de Janeiro.

"A Mangueira ainda não preparou nada para o Carnaval, não temos nem enredo", afirma Riche. "O momento é de preocupação com a nossa saúde. É tudo muito sério. E se [o Carnaval] for acontecer, nós não estamos atrasados. Há tempo tranquilamente."

A festa, que não ocorre somente nos sambódromos e avenidas e, cada vez mais, reúne milhões de pessoas em blocos e bloquinhos de rua e ao redor de trios elétricos espalhados pelas cidades, deixa uma legião de foliões com dúvidas sobre o seu futuro.

Conteúdo Relacionado


4 Comentário(s)

Exibir mais comentários

MAISACESSADAS